Otimizando o Neurodesenvolvimento na Displasia Broncopulmonar Grave: Escores BSRI e OSST na UTI Neonatal

Principais pontos

  • Escores BSRI ≥ 8 refletem alta tolerância funcional durante manuseios; valores inferiores indicam alerta para interrupção de manuseios e contenção.
  • O modelo de cuidado crônico interdisciplinar do CCBPD reduziu o atraso cognitivo/de linguagem (Bayley III < 70 aos 18-24 meses) de 49.8% para 15.2% em comparação com a coorte nacional NICHD NRN.
  • A taxa de atraso motor grave (Bayley III < 70) caiu de 41.7% na coorte nacional para 10.9% no modelo de cuidado crônico CCBPD.
  • A intervenção desenvolvimental que incentiva toque, posicionamento ativo e estímulos graduais não demonstrou aumento em taxas de extubação acidental.
  • O escore OSST monitora 4 domínios interdependentes (Respiratório, Neuro-regulação, Infecção/Inflamação e Nutrição/Crescimento) para acompanhar a melhora multissistêmica na DBP grave.

Referências

  • Susey et al., 2026 (AAP NeoReviews)

Otimizando o Neurodesenvolvimento na Displasia Broncopulmonar Grave

Capa do material mostrando um cérebro colorido estilizado com setas ascendentes ao lado, sobre fundo gradiente rosa e dourado, apresentando o título sobre neurodesenvolvimento na displasia broncopulmonar grave.

Otimizando o Neurodesenvolvimento na Displasia Broncopulmonar Grave

A utilidade clínica dos escores BSRI e OSST no monitoramento longitudinal e transição para o modelo de cuidado crônico à beira do leito.

Apresentação Interdisciplinar da UTI Neonatal | Integração de Escores Clínicos ao NeoFast

Fonte: Susey et al., 2026 (AAP NeoReviews)

  • BSRI – Behavioral Signs of Respiratory Instability
  • OSST – Optimal State Scoring Tool
  • CCBPD – Comprehensive Center for Bronchopulmonary Dysplasia, localizado no Nationwide Children’s Hospital (Columbus, Ohio).

Escalas BSRI e OSST no aplicativo NeoFast

Capturas de tela do aplicativo NeoFast mostrando a lista de outros cálculos e escores com destaque para a Escala BSRI e a Escala OSST, e as telas detalhadas de cada uma delas.

Outros cálculos e escores

  • Escala BSRI (Behavioral Signs of Respiratory Instability) – Tolerância do lactente com displasia broncopulmonar grave
  • Escala OSST (Optimal State Scoring Tool) – Lactentes com displasia broncopulmonar grave e relação com o crescimento linear

Escala BSRI (Behavioral Signs of Respiratory Instability) – Tolerância do lactente

Interação

  • Ausente, sem contato visual, choro inconsolável ou letargia profunda durante o manuseio.
  • Interação intermitente, fadiga rápida, busca por apoio físico de contenção.
  • Alerta ativo, mantém contato visual sustentado, responde positivamente ao estímulo.

Alinhamento da linha média

  • Inabilidade de trazer mãos ou cabeça à linha média; hipotonia axial severa.
  • Busca o alinhamento da linha média, mas necessita de facilitação e contenção manuais contínuas.
  • Traz as mãos à boca e mantém a cabeça centralizada espontaneamente ou com facilitação mínima.

Padrões extensores de movimento (continua)

Escala OSST (Optimal State Scoring Tool) – Lactentes com displasia broncopulmonar grave

Saturação basal de oxigênio
Respiratório · Faixa e estabilidade da SatO2 do paciente em repouso.

  • Sim
  • Não

Suporte respiratório ativo
Respiratório · Parâmetros de ventilação mecânica, níveis de pressão inspiratória ou fluxo (L/min).

  • Sim
  • Não

Trabalho respiratório em atividade
Respiratório · Intensidade e gravidade das retrações/tiragens durante atividades cotidianas.

O Peso do Comprometimento (NDI)

Ilustração de um homem carregando uma pedra pesada acima da cabeça, simbolizando o peso do comprometimento do neurodesenvolvimento em lactentes com displasia broncopulmonar grave.

Lactentes com DBP grave enfrentam alto risco de atraso do neurodesenvolvimento

O Peso do Comprometimento (NDI – Neurodevelopmental Impairment)

  • Atrasos que afetam a cognição, a linguagem, o comportamento e a visão de forma prolongada.
  • Comprometimento motor severo, incluindo paralisia cerebral, assimetrias posturais e distúrbios de coordenação.
  • Sequelas duradouras que persistem até a idade adulta, gerando déficits persistentes nas funções executivas.
  • Custos sociais e familiares aumentados devido a necessidades educacionais especiais e internações recorrentes.

Fatores de Risco Modificáveis na UTI

Cartaz listando os fatores de risco modificáveis na UTI para atraso do neurodesenvolvimento em lactentes com displasia broncopulmonar grave, incluindo hipoxemia intermitente, sedativos, estresse e nutrição.

Lactentes com DBP grave enfrentam alto risco de atraso do neurodesenvolvimento

Fatores de Risco Modificáveis na UTI

  • Hipoxemia Intermitente Crônica: causa flutuações rápidas na oxigenação, desencadeando inflamação e estresse oxidativo.
  • Exposição a Sedativos: medicamentos como corticosteroides sistêmicos, opioides e benzodiazepínicos estão diretamente ligados ao NDI.
  • Estresse e Dor Ambiental: procedimentos dolorosos frequentes e excesso de ruído alteram as substâncias branca e cinzenta cerebrais.
  • Nutrição Subótima: aumenta o esforço respiratório e prolonga o tempo de ventilação mecânica, um dos maiores preditores de NDI.

Modelo Agudo Tradicional (Evitar)

Cartaz de alerta sobre o modelo agudo tradicional de desmame ventilatório que deve ser evitado em lactentes com displasia broncopulmonar grave, com fundo salmão e ícone de sinal de pare.

O modelo de cuidado crônico evita a instabilidade e protege o cérebro

Modelo Agudo Tradicional (Evitar)

  • Desmames agressivos, rápidos e frequentes no ventilador baseados em parâmetros curtos de gasometria.
  • Foco obstinado em ‘desmamar a qualquer custo’, gerando episódios severos de desestabilização clínica.
  • Aumento reflexo do esforço respiratório, fadiga muscular, estresse e desespero fisiológico.
  • Falta de energia para reabilitação: o lactente consome toda a sua reserva apenas para tentar se manter estável.

Modelo de Cuidado Crônico – Recomendações

Cartaz de recomendações do modelo de cuidado crônico para displasia broncopulmonar grave, sobre imagem estilizada de pulmões, destacando desmame lento e conservação de energia metabólica.

Modelo de Cuidado Crônico

  • Desmame lento, planejado e interdisciplinar, priorizando a estabilidade fisiológica longitudinal.
  • Uso racional e estrito de suporte ventilatório adaptado à fisiologia cronicamente alterada da DBP.
  • Redução intencional do trabalho respiratório basal e das flutuações e episódios de hipoxemia.
  • Conservação de energia metabólica, promovendo o crescimento linear alveolar e a tolerância a terapias

Escala BSRI – Tabela de Itens Clínicos

Tabela detalhando os cinco itens clínicos da escala BSRI - interação, alinhamento de linha média, padrões extensores, taquipneia e trabalho respiratório - comparando escore zero e escore dois.

A escala BSRI mensura a tolerância respiratória ativa durante as terapias na UTI

Item Clínico (BSRI)Escore zero (Instabilidade Grave)Escore 2 (Estabilidade/Sucesso)
1. InteraçãoChoro inconsolável, letargia profunda, inabilidade de manter contato visual durante o manuseio.Alerta ativo e calmo, mantém contato visual com cuidadores e responde positivamente ao estímulo.
2. Alinhamento de Linha MédiaInabilidade severa de trazer mãos e cabeça à linha média; hipotonia axial flácida.Traz mãos à boca espontaneamente ou com facilitação mínima, sustentando a cabeça centrada.
3. Padrões ExtensoresHiperextensão global rígida de tronco e pescoço (opistótono); assimetria e espasmos de extensão.Movimentos organizados, flexão ativa confortável sem padrões anormais de hiperextensão muscular.
4. TaquipneiaFrequência respiratória severamente elevada (>80 irpm) ou crises de taquipneia seguidas de apneia.FR mantida dentro dos padrões basais normais do paciente durante a atividade (geralmente <60 irpm).
5. Trabalho RespiratórioTiragens esternal, subcostal e intercostal graves e batimento de asa de nariz contínuo durante o manuseio.Esforço respiratório confortável e estável, sem recrutamento de musculatura acessória no manuseio.

Pontuações ≥ 8 refletem alta tolerância funcional. Valores inferiores servem de alerta para interrupção de manuseios e contenção.

Escore OSST – Domínios Clínicos

Cartaz explicando os quatro domínios clínicos interdependentes avaliados pelo escore OSST: respiratório, neuro-regulação, infecção e inflamação, e nutrição e crescimento.

O escore OSST monitora a melhora multissistêmica em 4 domínios clínicos interdependentes

1. Domínio Respiratório (Respiratory)

  • Saturação basal de oxigênio em repouso
  • Grau de suporte ventilatório e fluxos
  • Intensidade do esforço respiratório basal
  • Função do VD e pressão de artéria pulmonar

2. Domínio de Neuro-regulação (Neuro-regulation)

  • Organização e controle de estados de vigília
  • Qualidade e duração de ciclos normais de sono
  • Tolerância e resistência durante atividades
  • Capacidade de autorregulação e autoconsolo

3. Domínio de Infecção e Inflamação (Infection)

  • Exposição a corticosteroides que barram o crescimento
  • Presença de múltiplos acessos venosos centrais
  • Monitoramento de marcadores inflamatórios sistêmicos
  • Controle do balanço hídrico pulmonar (diuréticos)

4. Domínio de Nutrição e Crescimento (Nutrition)

  • Velocidade de ganho de peso (g/kg/dia)
  • Crescimento linear / estatura semanal (cm/semana)
  • Proporcionalidade da relação peso-comprimento
  • Indicadores de saúde metabólica e mineralização óssea

Efeitos Clínicos do Modelo Interdisciplinar

Infográfico mostrando gráfico de barras comparando taxas de atraso cognitivo/linguagem e atraso motor entre a coorte nacional NICHD NRN e o modelo de cuidado crônico CCBPD, com redução de 49,8% para 15,2% e de 41,7% para 10,9%.

O programa interdisciplinar CCBPD reduziu em mais de 60% os atrasos graves de desenvolvimento

Efeitos Clínicos do Modelo Interdisciplinar

  • Redução no Atraso Cognitivo e de Linguagem: queda drástica de 49.8% para apenas 15.2% na taxa de escores Bayley III < 70 aos 2 anos de idade corrigida.
  • Capacidade Motora: diminuição acentuada de 41.7% para 10.9% na taxa de atraso motor grave.
  • Segurança Comprovada: a intervenção desenvolvimental, que incentiva o toque, posicionamento ativo e estímulos graduais, não demonstrou aumento em taxas de extubação acidental.

Redução Drástica do Comprometimento Neurodesenvolvimental

IndicadorCoorte Nacional (NICHD NRN)Modelo de Cuidado Crônico (CCBPD)
Atraso Cognitivo/Linguagem (Bayley < 70 aos 18-24m)49.8%15.2%
Atraso Motor (Bayley < 70 aos 18-24m)41.7%10.9%

Ações imediatas integram os escores na rotina e no prontuário eletrônico

Infográfico com lista de ações de treinamento, padronização e decisões clínicas para integrar os escores OSST e BSRI na rotina hospitalar e no prontuário eletrônico.

Ações imediatas integram os escores na rotina e no prontuário eletrônico

Treinamento e Padronização

  • Treinar terapeutas e enfermagem para aplicar e registrar o escore BSRI em cada sessão de estimulação motora.
  • Alinhar a equipe médica e de nutrição para realizar a pontuação do OSST semanalmente.
  • Utilizar as notas de forma integrada nos Rounds semanais multidisciplinares.

Decisões clínicas

  • Definir escores do OSST/BSRI baixos como barreiras automáticas que exigem adiamento temporário de desmames.
  • Monitorar o crescimento linear e o balanço hídrico como critérios de sucesso e segurança clínicos.
  • Registrar os resultados e as notas de Bayley III obtidos no follow-up de 2 anos para gerar relatórios de qualidade.

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Perguntas frequentes

O que significa um escore BSRI baixo durante o manuseio do lactente com DBP grave?

Um escore BSRI baixo indica instabilidade grave, como choro inconsolável, letargia profunda, hipotonia axial severa, hiperextensão rígida (opistótono), taquipneia acima de 80 irpm e tiragens graves; isso serve de alerta para interrupção de manuseios e contenção. Já pontuações ≥ 8 refletem alta tolerância funcional.

Quais são os itens clínicos avaliados na escala BSRI?

A escala BSRI avalia 5 itens: (1) Interação, (2) Alinhamento de Linha Média, (3) Padrões Extensores, (4) Taquipneia (frequência respiratória, com meta geralmente <60 irpm) e (5) Trabalho Respiratório (presença ou ausência de tiragens e batimento de asa de nariz).

Quais são os domínios avaliados pelo escore OSST?

O escore OSST avalia 4 domínios clínicos interdependentes: Respiratório (saturação basal de O2, suporte ventilatório, esforço respiratório e função do VD), Neuro-regulação (organização de estados de vigília, sono, tolerância a atividades, autorregulação), Infecção/Inflamação (exposição a corticosteroides, acessos venosos centrais, marcadores inflamatórios, balanço hídrico) e Nutrição/Crescimento (ganho de peso em g/kg/dia, crescimento linear em cm/semana, proporcionalidade peso-comprimento e mineralização óssea).

Quais são os fatores de risco modificáveis para o neurodesenvolvimento na UTI neonatal em lactentes com DBP grave?

Os fatores de risco modificáveis incluem hipoxemia intermitente crônica (que causa inflamação e estresse oxidativo), exposição a sedativos como corticosteroides sistêmicos, opioides e benzodiazepínicos, estresse e dor ambiental (procedimentos dolorosos e excesso de ruído que alteram substâncias branca e cinzenta cerebrais), e nutrição subótima, que aumenta o esforço respiratório e prolonga o tempo de ventilação mecânica.

Como o modelo de cuidado crônico difere do modelo agudo tradicional no manejo da DBP grave?

O modelo agudo tradicional busca desmames agressivos e rápidos baseados em parâmetros curtos de gasometria, gerando desestabilização clínica e consumindo toda a reserva energética do lactente sem sobra para reabilitação. Já o modelo de cuidado crônico prioriza desmame lento e planejado, uso racional de suporte ventilatório adaptado à fisiologia crônica da DBP, redução do trabalho respiratório basal e conservação de energia metabólica para promover crescimento alveolar e tolerância às terapias.

Dra. Marcela M Marques
Escrito por
Neonatologista e intensivista pediátrica · CRM 12807/DF
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