Gasometria Neonatal: Interprete Certo, Passo a Passo

Principais pontos

  • O anion gap neonatal normal é de 4–12 mEq/L (8 ± 4); valores acima de 16 em acidose metabólica sugerem acidose lática, enquanto entre 8 e 16 o AG não diferencia as causas.
  • A fórmula de Winters (pCO₂ esperada = 1,5 × HCO₃⁻ + 8, ± 2 mmHg) permite verificar se a compensação respiratória da acidose metabólica é adequada.
  • Uma mudança aguda na PaCO₂ altera o pH de forma previsível: na hipercapnia, pH esperado = 7,40 − (PaCO₂ − 40) × 0,006; se o pH medido diferir mais de ± 0,03 do esperado, há necessariamente um distúrbio metabólico associado.
  • Bolhas de ar na amostra reduzem a PaCO₂ e levam a PaO₂ a tender para ~150 mmHg; todas as bolhas devem ser retiradas antes de colocar a amostra no analisador.
  • O bicarbonato de sódio não é recomendado rotineiramente nem na RCP, e pode ser prejudicial na hipóxia com acidose metabólica, devendo-se priorizar o tratamento da causa e a restauração da oferta de O₂.

Referências

  • Travers C, Ambalavanan N. Blood gases: technical aspects and interpretation. In: Keszler M, Gautham KS, eds. Goldsmith’s Assisted Ventilation of the Neonate. 7ª ed. Elsevier; 2022. Cap. 10, p. 94–110.
  • Mathew B, Lakshminrusimha S. Noninvasive monitoring of gas exchange. In: Goldsmith’s Assisted Ventilation of the Neonate. 7ª ed. Elsevier; 2022. Cap. 11.
  • Albert MS, Dell RB, Winters RW. Quantitative displacement of acid-base equilibrium in metabolic acidosis. Ann Intern Med. 1967;66:312-22.
  • Adrogué HJ, Madias NE. Secondary responses to altered acid-base status: the rules of engagement. J Am Soc Nephrol. 2010;21:920-3.
  • Berend K, de Vries AP, Gans RO. Physiological approach to assessment of acid-base disturbances. N Engl J Med. 2014;371:1434-45.
  • Lorenz JM, Kleinman LI, Markarian K, et al. Serum anion gap in the differential diagnosis of metabolic acidosis in critically ill newborns. J Pediatr. 1999;135:751-5.
  • Kraut JA, Madias NE. Serum anion gap: its uses and limitations in clinical medicine. Clin J Am Soc Nephrol. 2007;2:162-74.
  • The Harriet Lane Handbook. 23ª ed. Elsevier; 2023. Tabela 11.14.
  • Kliegman RM, St Geme JW III, Blum NJ, et al. Nelson Textbook of Pediatrics. 22ª ed. Elsevier; 2025.
  • Mammel MC, van Kaam AHLC, Donn SM, eds. Manual of Neonatal Respiratory Care. 5ª ed. Springer; 2022.
  • Fórmula de Winters: Albert MS, Dell RB, Winters RW. Quantitative displacement of acid-base equilibrium in metabolic acidosis. Ann Intern Med 1967;66:312-22.
  • Acidose respiratória: Adrogué HJ, Madias NE. Secondary responses to altered acid-base status: the rules of engagement. J Am Soc Nephrol 2010;21:920-3.
  • Acidose respiratória: The Harriet Lane Handbook. 23ª ed. Elsevier; 2023. Tabela 11.14.
  • Acidose respiratória: Berend K, de Vries AP, Gans RO. Physiological approach to assessment of acid-base disturbances. N Engl J Med 2014;371:1434-45. Tabela 1.
  • Elias Knobel, Adalberto Stape, Eduardo Juan Troster, Alice D’Agostini Deutsch – Terapia Intensiva: Pediatria e Neonatologia – Atheneu, p. 851 e 853 — fórmula e faixa normal.
  • Ashok P. Sarnaik, Shekhar T. Venkataraman, Bradley A. Kuch – Mechanical Ventilation in Neonates and Children: A…
Capa do guia sobre gasometria neonatal com imagem de analisador de gases sanguíneos e seringa de sangue.

GUIA À BEIRA DO LEITO · NEONATOLOGIA

Gasometria neonatal: interprete certo, passo a passo

Qualidade da amostra, regras de compensação, anion gap neonatal, fórmula deWinters e índices de oxigenação.

Referências

  1. Travers C, Ambalavanan N. Blood gases: technical aspects and interpretation. In: Keszler M, Gautham KS, eds. Goldsmith’s Assisted Ventilation of the Neonate. 7ª ed. Elsevier; 2022. Cap. 10, p. 94–110.
  2. Mathew B, Lakshminrusimha S. Noninvasive monitoring of gas exchange. In: Goldsmith’s Assisted Ventilation of the Neonate. 7ª ed. Elsevier; 2022. Cap. 11.
  3. Albert MS, Dell RB, Winters RW. Quantitative displacement of acid-base equilibrium in metabolic acidosis. Ann Intern Med. 1967;66:312-22.
  4. Adrogué HJ, Madias NE. Secondary responses to altered acid-base status: the rules of engagement. J Am Soc Nephrol. 2010;21:920-3.
  5. Berend K, de Vries AP, Gans RO. Physiological approach to assessment of acid-base disturbances. N Engl J Med. 2014;371:1434-45.
  6. Lorenz JM, Kleinman LI, Markarian K, et al. Serum anion gap in the differential diagnosis of metabolic acidosis in critically ill newborns. J Pediatr. 1999;135:751-5.
  7. Kraut JA, Madias NE. Serum anion gap: its uses and limitations in clinical medicine. Clin J Am Soc Nephrol. 2007;2:162-74.
  8. The Harriet Lane Handbook. 23ª ed. Elsevier; 2023. Tabela 11.14.
  9. Kliegman RM, St Geme JW III, Blum NJ, et al. Nelson Textbook of Pediatrics. 22ª ed. Elsevier; 2025.
  10. Mammel MC, van Kaam AHLC, Donn SM, eds. Manual of Neonatal Respiratory Care. 5ª ed. Springer; 2022.

Seis passos, em toda gasometria

Fluxograma com seis passos para interpretação da gasometria neonatal, do passo 0 ao passo 5.

A gasometria arterial continua sendo o padrão-ouro para avaliar oxigenação e ventilação no recém-nascido grave, mas só se for interpretada corretamente.

  • Passo 0 — A amostra é confiável? Bolhas de ar, diluição, atraso, coleta capilar, HbF, temperatura.
  • Passo 1 — pH. Acidemia ou alcalemia?
  • Passo 2 — PaCO₂ + pH esperado. O CO₂ explica todo o pH?
  • Passo 3 — HCO₃⁻ / BE / lactato. Componente metabólico e sua origem.
  • Passo 4 — Compensação esperada. Winters, regra da alcalose, regra da acidose respiratória.
  • Passo 5 — Anion gap + oxigenação. Faixa neonatal do AG, CaO₂, IO, OSI, AaDO₂.

Uma gasometria muito diferente da anterior é uma mudança importante no paciente ou um erro de medida. Nunca a interprete sem o quadro clínico.

Os erros acontecem antes do analisador

Tabela mostrando erros pré-analíticos comuns na coleta de gasometria e seus efeitos no resultado.

Os erros pré-analíticos (coleta e manuseio) são os que o clínico mais encontra.

ProblemaEfeito no resultado
Bolhas de arA PaCO₂ cai. A PaO₂ tende a ~150 mmHg (sobe se estava abaixo, cai se estava acima). Até um scalp expõe ar suficiente.
Diluição com soroA PaCO₂ cai e o déficit de base aumenta, quase sem mudar o pH: simula acidose metabólica + alcalose respiratória.
Emulsão lipídica · heparinaSem efeito relevante.
Atraso no processamentoAs células continuam consumindo O₂. PaO₂/SaO₂ estáveis por até 30 min (em temperatura ambiente ou no gelo); a PaCO₂ sobe após 20 min, sem significado clínico.
LactatoProcessar em até 15 min, ou ocorre o aumento na espera.

Retire todas as bolhas de ar antes de colocar a amostra no analisador.

Três armadilhas exclusivas da UTI neonatal

Três quadros destacando armadilhas específicas da neonatologia: amostra capilar, hemoglobina fetal e temperatura na hipotermia terapêutica.

1 · Amostra capilar arterializada

  • CAU e calcanhar aquecido, coletados ao mesmo tempo: a capilar prediz mal o pH, a PaCO₂ e a PaO₂ arteriais.
  • Mais útil no RN em ventilação crônica, para acompanhar grandes variações de pH e PaCO₂.
  • Nunca ajuste a FiO₂ por uma PaO₂ capilar.

2 · Hemoglobina fetal e a SaO₂ do laudo

  • A maioria dos analisadores calcula a SaO₂ a partir da PaO₂, supondo hemoglobina adulta.
  • Com HbF alta (curva desviada para a esquerda), a saturação calculada fica falsamente baixa.
  • Precisa do valor real? Use a co-oximetria.

3 · Temperatura (hipotermia terapêutica)

  • Os analisadores informam a 37 °C; o RN em hipotermia está a 33,5–34,5 °C.
  • O resultado a 37 °C pode não refletir o estado real do paciente, e não há consenso sobre a correção.
  • Alguns serviços informam os valores: corrigidos e não corrigidos.

Primeiro o pH: de que lado estamos?

Tabela de valores normais de pH e tampão bicarbonato, com classificação dos distúrbios ácido-base primários conforme pH e alteração primária.
  • 7,35 – 7,45 — pH normal
  • HCO₃⁻ : CO₂ = 20 : 1 — Tampão ácido carbônico–bicarbonato
  • Em toda a faixa de pH compatível com a vida (6,9–7,6), a [H⁺] varia menos de 0,13 mmol/L: o controle é muito estreito.
  • A compensação (“resposta secundária”) leva o pH em direção ao normal, mas em geral não corrige totalmente nem hipercorrige.
  • Resposta respiratória: começa quase imediatamente e age em minutos.
  • Resposta renal: começa em 6–12 h e leva 3–5 dias.
Distúrbio primáriopHAlteração primária
Acidose respiratória↓PaCO₂ ↑
Alcalose respiratória↑PaCO₂ ↓
Acidose metabólica↓HCO₃⁻ ↓ (BE mais negativo)
Alcalose metabólica↑HCO₃⁻ ↑

pH “normal” com PaCO₂ e HCO₃⁻ alterados é distúrbio misto até prova em contrário.

O CO2 explica o pH?

Fórmulas para calcular o pH esperado em hipercapnia e hipocapnia, com exemplo numérico de aplicação.

PaCO₂ normal: 35–45 mmHg. Uma mudança aguda da PaCO₂ altera o pH em uma quantidade previsível.

  • Hipercapnia: pH esperado = 7,40 − (PaCO₂ − 40) × 0,006
  • Hipocapnia: pH esperado = 7,40 + (40 − PaCO₂) × 0,01

Exemplo: PaCO₂ 55 mmHg → 15 × 0,006 = 0,09 → pH esperado 7,31. Se o pH medido diferir mais de ± 0,03, há necessariamente um distúrbio metabólico.

  • Ventilação alveolar = FR × (Vc − espaço morto). O espaço morto pode chegar a 20% do Vc no RN de extremo baixo peso intubado.
  • Esta checagem funciona sem olhar o HCO₃⁻ nem o BE.

Excesso de base e lactato: conheça os limites

Dois quadros explicando o significado do excesso/déficit de base e os valores de referência e implicações clínicas do lactato neonatal.

Excesso de base / déficit de base

  • Quantidade de ácido ou base necessária para levar o pH a 7,4 com PaCO₂ normal.
  • Derivado de nomogramas: os valores diferem entre fabricantes de analisadores.
  • O HCO₃⁻ do laudo da gasometria é calculado, não medido.

Lactato

  • RN a termo: em geral < 2,0 mmol/L (use os valores de referência locais).
  • Os valores arterial, venoso e capilar se correlacionam bem. Processar em até 15 min.
  • O maior lactato nas primeiras horas prediz EHI moderada a grave após asfixia intraparto.
  • Distingue produção de ácido (oferta de O₂ insuficiente) de perda de bicarbonato (ex.: acidose tubular renal).

Fórmula de Winters: a ventilação está acompanhando?

Fórmula de Winters para calcular a PCO2 esperada na acidose metabólica, com exemplo e tela do aplicativo NeoFast mostrando a calculadora.

Disponível no NeoFast

pCO₂ esperada = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 (± 2) mmHg

Exemplo: HCO₃⁻ 12 → pCO₂ esperada 26 (24–28 mmHg)

  • pCO₂ medida acima da faixa → acidose respiratória associada.
  • pCO₂ medida abaixo da faixa → alcalose respiratória associada.
  • No RN em ventilação mecânica, a “resposta respiratória” são os parâmetros do seu ventilador.

Interpretação do resultado (app NeoFast): Compare o PCO₂ calculado com o PCO₂ do paciente obtido na gasometria da seguinte forma: PCO₂ do paciente maior que o calculado → acidose respiratória associada (hipoventilação); valores iguais (dentro da faixa ± 2) → compensação respiratória adequada, acidose metabólica pura; PCO₂ do paciente menor que o calculado → alcalose respiratória associada (hiperventilação). Nota: fórmula utilizada: PCO₂ = (1,5 × [HCO₃]) + 8 (intervalo ± 2).

Passo 5 · Anion gap

Infográfico explicando o cálculo e interpretação do anion gap neonatal, com tela do aplicativo NeoFast mostrando a fórmula e campos de Na+, Cl- e HCO3-.

Disponível no NeoFast

AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻)
Sem potássio · mEq/L

AG (mEq/L)Interpretação
4 – 12Faixa neonatal normal (8 ± 4)
> 12Aumentado
> 16Na acidose metabólica, sugere acidose lática
  • Entre 8 e 16, o AG não diferencia as causas.
  • Faixa obtida de RN graves na 1ª semana. Varia com o analisador.

Tela do aplicativo

  • Fórmula: AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻)
  • Na⁺ (mEq/L), de 100 a 200
  • Cl⁻ (mEq/L), de 50 a 150
  • HCO₃⁻ (mEq/L), de 1 a 60
  • Link: Anion gap corrigido pela albumina

Observações

O cálculo não inclui potássio. A faixa neonatal vem de RN gravemente enfermos na 1ª semana de vida (Lorenz 1999) e varia com o analisador. Na acidose metabólica, AG acima de 16 sugere acidose láctica; entre 8 e 16 não diferencia as causas (Lorenz 1999).

Na⁺, Cl⁻ e HCO₃⁻: 1 mEq/L = 1 mmol/L.

Passo 4 · Alcalose metabólica

Infográfico sobre alcalose metabólica neonatal iatrogênica, com fórmulas para pCO2 esperada e tela do aplicativo NeoFast com três regras de cálculo.

Disponível no NeoFast

pCO₂ esperada = 20 + 0,7 × (HCO₃⁻) (± 5)
mmHg

Exemplo: HCO₃⁻ 34 → pCO₂ esperada 43,8 (38,8 – 48,8 mmHg)

Causas neonatais

  • Acidose respiratória crônica compensada com PaCO₂ reduzida rápida demais.
  • Diuréticos crônicos (hipocloremia); perdas gástricas.
  • Excesso de acetato na NP; citrato após exsanguineotransfusão.

Tela do aplicativo

pCO₂ esperado na alcalose metabólica

  • Regra 1 (Oh’s): pCO₂ = 0,9 × HCO₃⁻ + 9 (± 2) mmHg
  • Regra 2 (Boston): pCO₂ = 0,7 × HCO₃⁻ + 20 (± 5) mmHg
  • Regra 3 (Adrogué e Madias; Harriet Lane): pCO₂ = 40 + 0,7 × (HCO₃⁻ − 24) mmHg

HCO₃⁻ (mEq/L): 34 (faixa de 15 a 60)

  • 39,60 mmHg (37,60 a 41,60) — pCO₂ esperado, regra 1: 0,9 × HCO₃⁻ + 9
  • 43,80 mmHg (38,80 a 48,80) — pCO₂ esperado, regra 2: 0,7 × HCO₃⁻ + 20
  • 47,00 mmHg — pCO₂ esperado, regra 3: 40 + 0,7 × (HCO₃⁻ − 24)

Passo 4 · Acidose respiratória

Infográfico sobre compensação metabólica na acidose respiratória aguda e crônica neonatal, com tela do aplicativo NeoFast mostrando as regras e referências bibliográficas.

Disponível no NeoFast

FaseAumento esperado do HCO₃⁻
Aguda+1 mEq/L a cada 10 mmHg de aumento da pCO₂
Crônica
> 2–5 dias
≈ +4 (3,5–5) mEq/L a cada 10 mmHg de aumento da pCO₂

Exemplo: RN com DBP, pCO₂ 60 mmHg há semanas → HCO₃⁻ esperado ≈ 24 + 2 × (3,5–4) = 31–32 mEq/L.

  • HCO₃⁻ menor que o esperado → acidose metabólica associada.
  • HCO₃⁻ maior que o esperado → alcalose metabólica associada (ex.: diuréticos).

Tela do aplicativo

Equilíbrio ácido-base

ACIDOSE METABÓLICA

  • Fórmula de Winters
  • Anion gap
  • Anion gap corrigido pela albumina

ALCALOSE METABÓLICA

  • pCO₂ esperado na alcalose metabólica

ACIDOSE RESPIRATÓRIA

Compensação metabólica esperada

FaseCompensação
Fase aguda+1 mEq/L de HCO₃⁻ para cada 10 mmHg de aumento da pCO₂
Fase crônicacerca de +4 (3,5 a 5) mEq/L de HCO₃⁻ para cada 10 mmHg de aumento da pCO₂

Crônica: 2 a 5 dias (Berend 2014).

Referência

  • Fórmula de Winters: Albert MS, Dell RB, Winters RW. Quantitative displacement of acid-base equilibrium in metabolic acidosis. Ann Intern Med 1967;66:312-22.
  • Acidose respiratória: Adrogué HJ, Madias NE. Secondary responses to altered acid-base status: the rules of engagement. J Am Soc Nephrol 2010;21:920-3.
  • Acidose respiratória: The Harriet Lane Handbook. 23ª ed. Elsevier; 2023. Tabela 11.14.
  • Acidose respiratória: Berend K, de Vries AP, Gans RO. Physiological approach to assessment of acid-base disturbances. N Engl J Med 2014;371:1434-45. Tabela 1.

Tratamento · Bicarbonato

Infográfico sobre uso criterioso do bicarbonato de sódio neonatal, com fórmula do déficit de bicarbonato e tela do aplicativo NeoFast calculando a dose e indicando a seção de Medicamentos.

Disponível no NeoFast

Não é para uso rotineiro. Não é mais recomendado na RCP. Pode ser prejudicial na hipóxia com acidose metabólica: trate a causa e restaure a oferta de O₂.

HCO₃⁻ (mEq) = déficit de base × peso (kg) × 0,3

  • Bicarbonato a 8,4% (1 mEq/mL) diluído 1:1 em água destilada → 0,5 mEq/mL.
  • Infundir lentamente, de preferência em 30–60 min ou 1 mEq/Kg/h.
  • Gera CO₂: cuidado na acidose mista, a menos que o volume-minuto aumente.
  • O NeoFast sugere infundir a 1 mEq/kg/h e coloca o resultado na tela, simples e rápido.

Tela do aplicativo

Déficit de bicarbonato

  • Peso (Kg): 2
  • HCO₃⁻ desejado (mEq/L): 24
  • HCO₃⁻ atual do paciente (mEq/L): 15 — Valor da gasometria do paciente

5,4 mEq — Déficit de bicarbonato · ΔHCO₃⁻ 9 mEq/L

O app converte esta dose em mL de bicarbonato a 8,4% na seção Medicamentos: Bicarbonato de sódio (acidose metabólica)

Nota: HCO₃⁻ necessário (mEq) = (HCO₃⁻ desejado − HCO₃⁻ atual) × 0,3 × peso (kg). Para o bicarbonato, 1 mEq = 1 mmol (íon monovalente), por isso os dois valores coincidem.

Medicamentos · Bicarbonato de sódio

Tela do aplicativo NeoFast mostrando o cálculo completo de dose, diluição e velocidade de infusão de bicarbonato de sódio a 8,4% para acidose metabólica.

Medicamentos

  • Bicarbonato de sódio
  • Acidose metabólica (cálculo com base no déficit de base)

Opções: Calcular o déficit de HCO₃⁻ / Já tenho o déficit de HCO₃⁻

Concentração: 8,4%

Unidades: mEq/L | mg/dl

  • Peso (Kg): 2
  • déficit de HCO3 (mEq/L): 5,4

Bicarbonato de sódio — Já tenho o déficit de HCO₃⁻ – 8,4%

  • Dose: 3,24 mEq
  • Dose: 3,24 mL

Diluição

  • Diluir a dose em mL com AD: 3,24 mL
  • Concentração final após diluição: 0,5 mEq/mL
  • Volume total a ser administrado: 6,48 mL
  • Tempo de infusão (a 1 mEq/kg/h): 1h38min
  • Velocidade de infusão (solução a 0,5 mEq/mL): 4 mL/h

Oxigenação · Conteúdo arterial de O2

Infográfico explicando que a PaO2 não representa o conteúdo total de oxigênio, com fórmula do CaO2 e tela do aplicativo NeoFast com campos de Hb, SaO2 e PaO2.

Disponível no NeoFast

CaO₂ = (Hb × 1,34 × SaO₂) + (PaO₂ × 0,0031)

Exemplo: Hb 15, SaO₂ 95%, PaO₂ 60 → 19,3 mL/dL, dos quais só 0,2 está dissolvido.

  • A hemoglobina transporta quase todo o O₂: aumentar a PaO₂ acrescenta muito pouco.
  • A HbF desvia a curva para a esquerda: SaO₂ maior com a mesma PaO₂. A transfusão de Hb adulta a desloca de volta.
  • A oferta de O₂ também depende do débito cardíaco (120–150 mL/kg/min).

Tela do aplicativo

Conteúdo Arterial de Oxigênio – CaO2

Fórmula: CaO2 = (Hb × 1,34 × SaO2) + (PaO2 × 0,0031)

  • Hb (g/dL)
  • SaO2 — Valores entre 0 a 1,0, onde 1 equivale a 100%.
  • PaO2 (mmHg)

Valores de referência

Normal: 18 – 20 mL/dL. O conteúdo venoso de referência é de 13 a 16 mL/dL, e a diferença arteriovenosa, de 4 a 5,5 mL/dL.

Fonte: Knobel.

Referência

  • Elias Knobel, Adalberto Stape, Eduardo Juan Troster, Alice D’Agostini Deutsch – Terapia Intensiva: Pediatria e Neonatologia – Atheneu, p. 851 e 853 — fórmula e faixa normal.
  • Ashok P. Sarnaik, Shekhar T. Venkataraman, Bradley A. Kuch – Mechanical Ventilation in Neonates and Children: A…

Oxigenação · Conteúdo arterial de O2 (resultado)

Tela do aplicativo NeoFast exibindo o resultado do cálculo de CaO2 com valores de exemplo e interpretação dentro da faixa normal.

Conteúdo Arterial de Oxigênio – CaO2

Fórmula: CaO2 = (Hb × 1,34 × SaO2) + (PaO2 × 0,0031)

  • Hb (g/dL): 15
  • SaO2: 0,95 — Valores entre 0 a 1,0, onde 1 equivale a 100%.
  • PaO2 (mmHg): 60

19,28 mL/dL — Conteúdo arterial de oxigênio

Normal (18 – 20 mL/dL)

CaO2 entre 18 e 20 mL/dL: a quantidade total de oxigênio transportada no sangue arterial está dentro da faixa esperada.

Valores de referência

Normal: 18 – 20 mL/dL. O conteúdo venoso de referência é de 13 a 16 mL/dL, e a diferença arteriovenosa, de 4 a 5,5 mL/dL.

Fonte: Knobel.

Referência

  • Elias Knobel, Adalberto Stape, Eduardo Juan Troster, Alice D’Agostini Deutsch – Terapia Intensiva: Pediatria e Neonatologia – Atheneu, p. 851 e 853 — fórmula e faixa…

Oxigenação · Gravidade (IO e OSI)

Infográfico comparando os índices de oxigenação IO e OSI em neonatologia, com tabela de cortes de gravidade e tela do aplicativo NeoFast mostrando o cálculo do OSI.

Disponível no NeoFast

IO = FiO₂ × 100 × MAP ÷ PaO₂

OSI = FiO₂ × 100 × MAP ÷ SpO₂

SpO₂ pré-ductal · IO ≈ 2 × OSI (SpO₂ 70–99%)

Exemplo: MAP 12, FiO₂ 0,6, SpO₂ 90% → OSI 8 → IO ≈ 16

IOCortes publicados
> 15Comprometimento respiratório grave
> 25Considerar ECMO
≥ 40Historicamente ~80% de mortalidade; critério de ECMO

Tela do aplicativo

Índice de Saturação de Oxigênio – OSI

Fórmula: OSI = (MAP × FiO2 × 100) ÷ SpO2

Link: Calcular a Pressão Média de Via Aérea

Sobre o OSI

O Índice de Saturação de Oxigênio é uma versão não invasiva do Índice de Oxigenação (OI).

  • MAP (cmH2O): 12
  • FiO2: 0,6 — Valores entre 0,21 e 1,00, onde 1,00 equivale a 100% e 0,40, a 40%, por exemplo.
  • SpO2 (%): 90 — Informe um valor inteiro entre 1 e 100, como 94 para uma saturação de 94%.

8 — Índice de saturação de oxigênio

Limiar diagnóstico atingido (5 – 12)

OSI de 5 ou mais atinge o limiar diagnóstico da definição PARDS 2.0 em ventilação invasiva. Abaixo de 12, a gravidade é classificada como leve a moderada.

Correlação com o Índice de Oxigenação…

Gradiente A–a: compare com a mesma FiO₂

Infográfico explicando a fórmula do gradiente alvéolo-arterial de oxigênio (AaDO2) com exemplo numérico e tela do aplicativo NeoFast mostrando a calculadora.

OXIGENAÇÃO · GRADIENTE

Gradiente A–a: compare com a mesma FiO₂

✓ Disponível no NeoFast

AaDO₂ = [(713 × FiO₂) – (PaCO₂ ÷ 0,8)] – PaO₂

mmHg · ao nível do mar

Exemplo: FiO₂ 0,6, PaCO₂ 50, PaO₂ 60 → AaDO₂ ≈ 305 mmHg

  • Normal no recém-nascido: < 50 mmHg. Em ar ambiente, 20–40 mmHg podem persistir por dias.
  • A AaDO₂ sobe de forma imprevisível com o aumento da FiO₂: para acompanhar a evolução, compare medidas com a mesma FiO₂.
  • A hipoxemia é, na maioria das vezes, distúrbio V/Q ou shunt (HPPN, atelectasia).

Diferença Alveolar-Arterial de Oxigênio – AaDO2 (tela do app)

Σ FÓRMULA
AaDO2 = [(713 × FiO2) – (PaCO2 ÷ 0,8)] – PaO2

Sobre a AaDO2
Avalia a eficiência pulmonar por meio da diferença entre a pressão alveolar e a pressão arterial de oxigênio.

Condição para o cálculo
Esta equação é utilizada para o cálculo à beira do leito considerando a pressão barométrica ao nível do mar.

  • FiO2: 0,6 — Valores entre 0,21 e 1,00, onde 0,21 equivale a 21% e 1,00, a 100%.
  • PaCO2 (mmHg): 50
  • PaO2 (mmHg): 60

305,3 mmHg
Diferença alveolar-arterial de oxigênio

Caso à beira do leito · Parte 1

Infográfico de caso clínico de prematuro de 28 semanas com valores de gasometria e eletrólitos, mostrando os dois primeiros passos de interpretação ácido-base.

CASO À BEIRA DO LEITO · PARTE 1

Prematuro de 28 semanas, 3º dia, ventilação convencional

Amostra arterial do CAU, sem bolhas, processada imediatamente.

pHPaCO₂HCO₃⁻
7,225823
Na⁺Cl⁻Lactato
1381061,4

Passo 1 · pH

7,22 → acidemia.

Passo 2 · O CO₂ explica?

pH esperado = 7,40 – (58 – 40) × 0,006 = 7,29.
O medido, 7,22, está 0,07 abaixo (além de ± 0,03) → há também uma acidose metabólica.

Caso à beira do leito · Parte 2

Infográfico mostrando os passos finais de interpretação do caso clínico: compensação esperada, cálculo do anion gap e conclusão diagnóstica de acidose mista.

CASO À BEIRA DO LEITO · PARTE 2

Juntando tudo

Passo 4 · Compensação esperada

Acidose respiratória aguda: o HCO₃⁻ deveria subir ~1 a cada 10 mmHg → esperado ≈ 25,8.
O medido, 23, está abaixo → confirma a acidose metabólica associada.

Passo 5 · Anion gap

138 – (106+23) = 9 mEq/L → dentro da faixa neonatal (4–12): acidose com AG normal. Lactato de 1,4 é normal.

Conclusão

Acidose mista: respiratória aguda + metabólica com AG normal.
Revise a ventilação (Vc, frequência, espaço morto) e investigue perda de bicarbonato, comum no rim do prematuro extremo. Considere acetato na NP antes de pensar em bicarbonato.

Dar bicarbonato aqui geraria mais CO₂ em um RN que já não consegue eliminá-lo.

Checklist à beira do leito

Infográfico final com checklist numerado de interpretação de gasometria e telas do aplicativo NeoFast com menu de cálculos e opções de download nas lojas de aplicativos.

SALVE PARA O PRÓXIMO PLANTÃO

Checklist à beira do leito

  • 0 · A amostra é confiável: bolhas, diluição, atraso, capilar, HbF, temperatura.
  • 1 · pH: acidemia ou alcalemia?
  • 2 · PaCO₂: o pH esperado bate dentro de ± 0,03?
  • 3 · HCO₃⁻, BE e lactato: mesmo analisador, mesmo método.
  • 4 · Compensação esperada: Winters, regra da alcalose, aguda vs. crônica.
  • 5 · Anion gap neonatal (4–12) e oxigenação: CaO₂, IO/OSI, AaDO₂.

O NeoFast coloca essas fórmulas à beira do leito, em segundos, com faixas neonatais e referências em todas as telas.

Menu principal do app (tela)

  • Hidratação Venosa
  • Medicação Contínua
  • Medicamentos
  • Intubação
  • Outros cálculos e escores
  • Procedimentos
  • Monitorização respiratória e hemodinâmica
  • Crescimento e Desenvolvimento

Outros cálculos e escores (tela)

  • Valores de referência — Laboratório, sinais vitais e medidas por idade
  • Bioquímica e eletrólitos — Sódio, água livre, bicarbonato e osmolalidade
  • Equilíbrio ácido-base — Compensações e anion gap
  • Balanço hídrico — Entradas, saídas e diurese

Recentes:

  • Déficit de bicarbonato
  • Escore de Apgar — 1º e 5º minutos
  • Fórmula de Winters — Compensação do PCO2 esperado na acidose metabólica
  • Osmolalidade plasmática
  • Profundidade de inserção do tubo traqueal

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Conteúdo educativo. Não substitui o julgamento clínico.

Perguntas frequentes

Qual é a faixa normal do anion gap em recém-nascidos?

A faixa neonatal normal do anion gap é de 4 a 12 mEq/L (8 ± 4), obtida de recém-nascidos graves na 1ª semana de vida; valores acima de 16 em acidose metabólica sugerem acidose lática, e entre 8 e 16 o AG não diferencia as causas.

Como calcular a pCO₂ esperada pela fórmula de Winters?

A fórmula de Winters é pCO₂ esperada = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 (± 2) mmHg. Por exemplo, com HCO₃⁻ de 12, a pCO₂ esperada é 26 mmHg (faixa de 24–28). Se a pCO₂ medida estiver acima da faixa, há acidose respiratória associada; se abaixo, há alcalose respiratória associada.

Como saber se a PaCO₂ explica todo o pH medido na gasometria?

Na hipercapnia, o pH esperado = 7,40 − (PaCO₂ − 40) × 0,006; na hipocapnia, pH esperado = 7,40 + (40 − PaCO₂) × 0,01. Se o pH medido diferir mais de ± 0,03 do pH esperado, há necessariamente um distúrbio metabólico associado, independentemente do HCO₃⁻ ou BE.

O bicarbonato de sódio deve ser usado rotineiramente na acidose metabólica neonatal?

Não. O bicarbonato não é para uso rotineiro e não é mais recomendado na RCP. Pode ser prejudicial na hipóxia com acidose metabólica; nesses casos deve-se tratar a causa e restaurar a oferta de O₂. Quando indicado, a dose é HCO₃⁻ (mEq) = déficit de base × peso (kg) × 0,3, infundido lentamente em 30–60 min ou a 1 mEq/kg/h.

Quais armadilhas pré-analíticas mais afetam a gasometria neonatal?

As principais são: bolhas de ar (reduzem PaCO₂ e levam PaO₂ a ~150 mmHg), diluição com soro (reduz PaCO₂ e aumenta o déficit de base, simulando acidose metabólica + alcalose respiratória), atraso no processamento (PaCO₂ sobe após 20 min) e lactato não processado em até 15 min (aumenta falsamente).

Dra. Marcela M Marques
Escrito por
Neonatologista e intensivista pediátrica · CRM 12807/DF
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